23 março, 2010

Les rêves de Gondry


Submerso. Esse é o sujeito dos filmes de Michel Gondry.

Um homem submerso na realidade pós-moderna. Um homem frágil e impotente.

Que força terá um homem pra revolucionar o mundo imponente da mercadoria? Nenhuma. Impotente é esse homem.

A revolução contra o mundo, então, tem de ser particular. A superação do homem haverá de ser onírica e terá de ocorrer num âmbito livre das amarras sociais.

O sonho – retrato forte e recorrente nos filmes de Gondry - é o plano do possível distanciamento do homem perante o mundo.

Aquele que não vence na vida, sonha.

Vencer na vida – nessa sociedade do capital – é ter seu talento reconhecido e seu esforço recompensado.

Mas e quando o talento e o esforço estão presentes e não são nem reconhecidos, nem tampouco recompensados? Que faz um homem com a consciência de ter sido injustiçado? Que faz Stéphane Miroux – o artista de “The Science of Sleep” –  quando o mundo parece não compreender sua arte?

Sonha.

Algumas escolas filosóficas do século XX estudam a sociedade moderna como um lugar fragmentado e mediado pela lógica do mercado, estando todas as relações humanas sujeitas às vontades desse sistema.

O homem perdeu sua identidade e seu mundo virou um lugar fragmentado. A validade do papel do sujeito é pleiteada sob a única perspectiva de consumidor.

E as marcas de identidade do homem não se fazem mais por suas características pessoais, mas pelos atributos de mercado que consome.

O amor e as relações humanas nos filmes de Gondry, por esses pressupostos expostos acima, se dão sempre no âmbito do sonho, numa perspectiva de se verem livres à falência dos sentimentos quando submetidos a lógica desse mundo real. A licença poética que Gondry tira para trabalhar o sentimento humano, revela um olhar triste e piedoso para o homem que não conhece mais esses sentimentos, senão no plano da idealização.

Um mundo onde tudo é representação e nada é puro.

Que função tem um artista dentro desse sistema?

Representar um mundo que por si só já é representação? Inútil!

Ou esse artista se insere na lógica mercantil e tem sua arte transformada em mercadoria, ou esse artista rompe com o mundo e entra em decadência. O personagem principal do filme “The Science of Sleep” fica o tempo todo balançando em cima do muro, entre essas duas opções.

Roland Barthes – sociólogo e critico literário – diz em seu texto “A Aula” que a literatura tem um caráter utópico, pois pretende ter qualidades do real ao mesmo tempo em que sabe ser impossível alcançá-las.

O papel do artista era do mesmo nível que o da literatura descrita por Barthes. Pretendia tanto alcançar o real que acabou sendo cooptado pela realidade mercantil devido suas qualidades representativas e de forte persuasão.

O real e o imaginário e, o concreto e o abstrato, tornaram-se de tal maneira tao intrínsecos, ao propósito de servir ao sistema mercantil, que uma distinção entre um e outro já não é mais possível.

Isso se reflete não só nas obras de Gondry, mas também nas de seus parceiros Spike Jonze e Charlie Kaufman, de tal modo que poderia dizer que os três comungam de uma experiência, em termos de narrativa cinematográfica, análoga à vida.

Ai reside uma metalinguagem no cinema deles, num sentido em que seus filmes representam em grande parte essa confusão entre o real e o representado de tal maneira que o próprio filme se confunde com o real de suas vidas.

Jonze, Gondry e Kaufman são ao mesmo tempo sujeito e objeto.

Seus filmes são confusos pois são representações do particular de cada um deles, mas que, dentro da homogeneidade padronizada da sociedade mercantil, encontram um ponto comum de essência que eleva o particular à uma genérica representação do homem moderno, perdido e desolado ante o mundo do capital.

O sujeito do filme é ao mesmo tempo o diretor e o espectador, representado por uma particularidade, por um fragmento de mundo.

Tanto no cinema de Gondry quanto no cinema de Kaufman e Jonze, o que encontramos é um olhar nostálgico para o passado e entristecido para o presente. É como se em algum momento de suas vidas, eles tivessem experimentado a verdadeira essência do ser. É como se tivessem conhecido a real qualidade dos sentimentos. Até o momento em que caem no oceano capitalista e submergem nesse mundo, sofrendo um lapso nas relações humanas e perdendo contato com a essência verdadeira de ser.

O cinema de Gondry e de seus companheiros é o cinema do homem pós-moderno, que nada nesse oceano, exausto, sem fôlego e sem qualquer perspectiva de terra firme.

Ainda assim, mesmo que no plano onírico, um fragmento de amor e fraternidade sempre se apresenta como uma luz no fim do túnel.

17 março, 2010

A culpabilidade dissimulada do povo brasileiro!

           Maquiavel, Italo-brasileiro, é Pinóquio.  

 

Quando se põe em questão os problemas sociais de nosso país a resposta dada é sempre um ato de legar aos políticos a culpa por tudo que há de errado com nosso organismo social interno.

No entanto esse legado de culpa que genericamente o setor político carrega em suas costas é fruto de uma tradição política corrompida moralmente. A repetição de atos corruptos por parte dos administradores desse setor da sociedade cobriu com uma manta falaciosa as verdadeiras raízes corrompidas de nossa sociedade.

Os meios de comunicação – que visam sempre um feedback (audiência) consistente de seu publico – apelam para o agrado popular. Outorgar à população a verdadeira face da corrupção não venderia.  Isso porque a face corrupta é o povo brasileiro.

A mídia no entanto, não arrisca mostrar a precariedade moral enraizada na formação do cidadão brasileiro, uma vez que feriria seu feedback – ninguém quer ouvir falar mal de si próprio –. O que faz então é noticiar ações corruptas por parte dos políticos, sob o pretexto de denuncia. Esse modo de agir – como já disse – mascara o problema real. Nesse sentido, grande parte da culpa cai sobre a mídia também, por propagar a falácia que melhor serve ao mercado.

Quando alguma responsabilidade - de fato - cai sobre o homem comum, essa é uma responsabilidade de ordem menor. Acredito que melhor do que discorrer sobre o que seria essa responsabilidade de ordem menor, mais fácil será expor a frase símbolo desse ato. - "O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons". -

Tal enunciação é puro refugio ideológico daqueles que percebem a verdadeira culpa de seus atos e dissimulam a verdadeira natureza corrompida inerente em si sob a aprovação de ninguém menos que  Martin Luther King.

Tomado esse presuposto, diz-se dos “bons” que eles tem a culpa de eleger e se calar diante da corrupção política. Mas esse é o limite da culpa enunciada do povo. Nem a mídia, nem a população, nem tampouco alguns “ditos” intelectuais levantam as reais causas que levam à eleição deturpada de nossos representantes.

A verdade é que a formação do cidadão brasileiro é deficiente.

O que me trouxe a escrita desse texto foi algo que li na internet – numa comunidade do Orkut, mais incrivel por ser uma comunidade do George Orwell –.

O titulo do tópico era “ Vou roubar um livro...”. Entrei e li. Se tratava de um rapaz contando que ia roubar um livro – A revolução dos bichos –  da biblioteca de sua escola.

O resguardo ético do sujeito ante tal ação – criminosa –  era o pressuposto final da coisa toda.  Argumentava o rapaz que o estado do livro era deplorável e que havia ainda duas outras copias na biblioteca que ninguém jamais retirava. É o famoso tiro maquiavélico – os fins justificam os meios –.

Uma suspensão de juízo de valor – nos dias de hoje – é o tipo de coisa de que nossa sociedade não precisa. Independe o propósito final das coisas, o que está em voga é a discussão sobre o princípio da ação e nesse caso é um principio corrompido. O que é mais irônico aqui nesse caso é que Orwell próprio criticava ações deturpadas que enveredavam-se sob o argumento de supostas melhoras finais. Enfim...

O que mais me impressionou foi ver o apoio de grande parte das pessoas que comentaram. Coisa do tipo – vai la, rouba mesmo –. Li uns 20 comentários do tipo. É engraçado como o contexto afeta o julgamento. Isso é próprio do povo brasileiro.

Roubar é roubar, independente do que. Fosse um político o pessoal tava matando a pau. O principio, no entanto, é o mesmo.

Uma conclusão vem, finalmente, com tudo isso. O grande problema de nossa sociedade é a má índole de nosso povo que, dissimulado, titula isso como “jeitinho brasileiro”.

A verdade, por fim, é que o povo brasileiro é um povo preguiçoso e safado e que lança mão de argumentos contra os administradores do país – que operam também na mesma ordem de rompimento moral – outorgando à eles toda a responsabilidade por essa decadência.

A falência moral de nossa sociedade – enfim –  cai de forma equivocada sobre a cabeça da população como um ato culposo. O julgamento, no entanto, deveria ser na ordem do dolo.

 

10 março, 2010

Bukowski


A referencia da América suja. A verdadeira face da América. O velho safado. Descrito, na década de 70 por Sartre, como “o maior poeta vivo”.

Tantas são as nomeações. Ainda assim, por qualquer uma que se enuncie sua figura, sabemos de quem se trata. O velho Buk. Bukowski.

Há muito estou pra escrever a respeito dele. O grande problema é que é uma figura tão conhecida e alguem que já foi tão explorado em textos de analise, em referencias, e em apologias que é quase impossível conseguir divagar sobre o tão conhecido sem cair no comum.

Mas as qualidades estão na forma de enunciação – correto ? – .

Bem como diria Bukowski: foda-se, vou escrever assim mesmo!

 –  essa não! já to caindo no lugar comum dos textos bukowskianos; a repetição exaustiva de palavrões  –

Seja como for.

Se Bukowski carrega tantas classificações, se seu nome evoca um turbilhão infindável de clichês estereotipados, se a leitura de seus livros é abarrotada de pré-conceitos por aqueles que ainda não o leram, entre outras tantas coisas, é porque uma coisa é certa: algo de bom há.

No sentido pragmático de que há de ser bom pra causar efeito sei que alguns frankfurtianos discordariam de mim – ignoro –.

Pai azarão e piedoso do vernáculo marginal, Bukowski reclama os direitos do sub-mundo.

Suas palavras não são criticas. Seus relatos não são ideológicos. Seus livros não são panfletagens política.

O reclamar de direitos feito por Bukowski é fruto de um amargo humor. Sabor terrível que a vida lhe impôs. A America foi o pano de fundo e pagou o pato.

Ele não reclama seus direitos à uma ordem vigente concreta e especifica. Ele nem faz esse reclame de forma explicita.

As maldições que Bukowski prega é à quem bem servir. É à fortuna maquiavélica que tão mal lhe serviu.

Ou talvez lhe falte virtú.  

De qualquer jeito, essa figura que tem tanto desprezo por tudo e por todos inclusive, num lugar mais profundo, por si mesmo, não age assim de má fé. Bukowski próprio dizia – tinha um desprezo pelo miserável especifico mas simpatia pela figura do miserável. –

Ele é afetado empaticamente pelo trabalhador explorado, pela velha prostituta e pelo bêbado desempregado. Ai ele simpatiza – com as figuras dessa gente –. Seu verdadeiro problema é conhecer a pessoa em si. Ai vem o desprezo.

É ambíguo e difícil de compreender. Ainda assim, fácil. Sim, é ambíguo.

A escrita é dilacerada. Digo num sentido poético. O que ele faz é poesia. Ele se vale da escrita formal e a dilacera. Mexe nas entranhas das palavras. Cria seu texto de corpo e alma. É humano. É verdadeiro.

São tantas observações e suposições possíveis em cima de Bukowski que não posso deixar de abrir esse parênteses e reconhecer a parcela de presunção que ha nisso tudo. Sem falar na margem de equívocos. Mas é como leio Bukowski e pronto.

Bukowski dizia saber escrever apenas ao som de musica clássica. Ouço Bowie enquanto escrevo sobre ele.

Ai me pergunto – sua mensagem se perdeu em algum lugar no meio do caminho ? – .

Novamente, os frankfurtianos diriam que sim –virou industria –.

Dos rumos que tomou, não tenho duvidas que Bukowski tenha virado mercadoria, mas acredito que suas palavras ainda refletem efeito e continuam retratando, de forma concreta e sensível ao leitor, a decadência do homem moderno, independente de ser marginalizado ou não.

Num sentido mais amplo, acho que o que Bukowski retrata é justamente as teorias frankfurtianas num alicerce empírico. Ai já é outra divagação que talvez não venha ao caso agora.

Seja como for, é o cara.

Podia apontar o contexto de vida de Bukowski e, subseqüente, as razoes de sua escrita. Podia, ainda, para aqueles que não o conhecem, falar de algumas de suas obras. Mas não. Escrevo mais para lembrar à mim mesmo o que penso de Bukowski. Ou talvez para formalizar esse pensamento.

Penso nas obras que li dele e em que níveis se assemelham e em que níveis se distinguem. Essencialmente trazem a mesma abordagem de mundo.

Um olhar perdido e sem esperanças frente a vida. Mas ha em sua obra um amadurecer.  Conforme o passar dos anos, a atitude de revolta vai sendo posta de lado e a rebelião contra o homem vai dando lugar à uma nostalgia inimaginável ante a lembrança de seus dias de gloria – por gloria me refiro a beber, arrumar brigas e ser demitido de uma serie de empregos –.

Bukowski amadurece. Lá pelas tantas – já na escrita de “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio” ou “Pulp” – vemos uma maior tolerância com o mundo e com as pessoas.

Podem ver isso como o perder do espírito jovial. Eu vejo como nobreza.

09 março, 2010

Sigur Rós


Há uma banda islandesa chamada Sigur Rós. Escuto ao filme deles – Heima – enquanto  escrevo esse texto.

De certa forma fora o filme que me levou à inspiração de escrever.

Recomendo, a propósito que assistam ao filme. É um retrato muito bonito da Islândia sob o olhar desse grupo de pessoas – a banda –.

Mais especificamente, o filme mostra imagens primorosas do país ao som de musicas da banda intercaladas por depoimentos de seus integrantes.

Enfim, o que me traz aqui é a premissa da coisa toda. A premissa que enxergo no filme.

Eles pretendem, tão somente, falar sobre aquilo que conhecem. O filme mostra shows que a banda faz por diversos lugares da Islândia.

Em pleno inverno (realmente) rigoroso, fazem shows em campos abertos e multidões se atraem pra assisti-los. Adultos, jovens, crianças, bebês de colo e idosos. Famílias e grupos de amigos. Gente de todo o tipo é posta lado a lado ao som tão especifico da banda.

A harmonia desse retrato – das pessoas à musica – é uma representação da Islândia. A cultura do pais é muito viva no filme.

Os instrumentos são muito relativos a cultura local. Num dado momento os integrantes – sempre sob uma fotografia magnífica – saem pelos campos recolhendo pedaços de madeira e pedra e criam instrumentos a partir deles. Por fim levam os instrumentos a uma caverna de gelo e fazem um show ali.

Enxergo nisso tudo um discurso implícito sobre como certas coisas no mundo     – nesse caso a musica – são comum a todos os homens, adaptando-se somente as situações.

Numa cena se vê um lindo campo vazio, onde aos poucos vai se juntando um numero considerável de pessoas de todos os tipos. Todos muito agasalhados vão, pouco a pouco, tomando assento na grama até a entrada da banda. Em diversos aspectos essa imagem remete à lembrança de Woodstock.

É sobre esse discurso implícito que falo. A qualidade transcendental de alguns fenômenos. A musica sendo um deles. Independente da cultura referente, a musica alcança os mesmos efeitos onde quer que seja.

Ainda, a simplicidade do que é mostrado, a humildade de se ater ao seu próprio conhecimento de mundo, me lembra em muito ao documentário do João Moreira Salles – Santiago –.

Num discurso mais aberto e referente justamente às qualidades e atribuições de um filme documental, Salles discorre sobre sua perspectiva do que deve ser um documentário.

E a partir de um conhecimento próprio e um entender, enunciadamente, particular do que se trata um documentário, o diretor discorre, de forma condizente com o discurso do filme, sobre como um documentário é algo que se faz de dentro pra fora.

Quando diz de dentro pra fora Salles determina que o documentário deve ser a apresentação de um espectro de mundo, particular ao referente narrador, apresentado a partir do ponto de vista desse referente, propondo assim um conhecimento àqueles que estão de fora desse mundo.

É essa qualidade que enxergo no filme do Sigur Rós. O retrato de um espectro que desconheço. O enunciar de um mundo conhecido por quem o enuncia. Conhecemos, então, uma parte da Islândia. Recortes éticos – e por éticos me refiro aos modos e costumes – são apresentados sob um caráter de simplicidade.

Em poucas palavras e a grosso modo, acho que é isso que falta nas representações de mundo hoje em dia. Acho que se sobrepõe muito as presunções de querer abraçar à todas as coisas sob uma verdade universal. E que falta muito, pessoas afim de falar sobre a pequena sabedoria e entendimento que tem dentro do nosso grande espectro universal.

Acho mais.

Acho ainda que requer muita coragem pra fazer um discurso simples e – num bom sentido – humilde, como o que vejo nesse filme.

03 março, 2010

Avant Dr.Jekyll, avant!


My Way. Tudo que ouvia era aquela música.

A cada passo que dava ela ficava mais alta. Meu coração batia. Temente à incerteza do próximo passo.

Após algum tempo seguindo o som da música, finalmente me deparei com aquela grande porta.

Sabia que assim que a abrisse, de algum jeito, eu não seria mais a mesma pessoa. Jamais.

Cogitei, por alguns segundos sair daquele lugar. Pra falar a verdade, sair dali era só o que eu queria. Num gesto involuntário, um de meus pés chegou, ainda, a dar um passo de recuo.

Mas não podia abandonar a coisa toda ali. Não quando finalmente estava tão perto daquilo que vinha perseguindo há anos. Sabia o que tinha que ser feito. E ainda que com um grande embrulho no estomago, eu fiz.

Abri aquela porta. Uma porta imensa, do tamanho de três grandes homens. A dificuldade para abri-la, por causa do seu peso, de uma certa maneira me pareceu até apropriada. Após tantos anos de exaustão naquele caso, o ato final não poderia deixar por menos.

Dei, finalmente, meu primeiro passo dentro daquele ambiente. O odor que num primeiro instante percorreu meus pulmões fora o suficiente para nocautear o resto de meus sentidos e impedir uma instantânea percepção do resto do ambiente.

Finalmente abri meus olhos e numa rápida passada de olhar por aquela sala vi das mais terríveis atrocidades que um ser é capaz de cometer. Mas não foi isso o que me prendeu a atenção.

Seus feitos, afinal de contas, eu já conhecia de longa data. Por quantas vezes já havia entrado em cenas de seus crimes segundos após ele os ter cometido.

Nada daquilo me era surpreendente. A surpresa estava em finalmente ver seu rosto. Finalmente encontrá-lo pessoalmente.

Ainda que estivesse na expectativa de encará-lo. Ainda que quisesse olhar em seus olhos para poder dizer – Vejam não é o olhar de um homem, é o olhar do demônio –. Ainda que por anos essas fossem as únicas coisas que eu realmente desejasse, não foi seu rosto a coisa que primeiro me chamou atenção.

Por algum motivo, ao vê-lo sentado no meio da sala. Em meio a todo aquele cenário. A primeira coisa que me chamou a atenção foi sua mão.

Seu braço caído pra fora daquela cadeira era a única coisa que se discriminava àquela sua altitude altiva.

Pernas cruzadas, postura ereta, cabeça erguida. Tudo em perfeita harmonia com sua condição de noção de mundo. Seu ser superior. No entanto, naquele quadro que ele havia montado, a pintura de seu braço esquerdo caído para fora da cadeira foi o que me chamou a atenção. Percorri meu olhar do começo de seu ombro até a manga de seu paletó. E dali, detive meus olhos em sua mão. Ele segurava uma lâmina.

Dela, num ritmo lento, escorria um humor vermelho. Escorria como se tivesse a eternidade pra continuar escorrendo.

Foi a primeira coisa que vi.

Meu olhar contemplava aquela lâmina.

Eu nada mais fazia. Sabia por um relance de olhar, logo ao entrar, todo o resto de coisas terríveis que ali jaziam. Coisas que teriam sua devida atenção, em seu devido tempo.

Mas ali, naquele momento, tudo que via era aquela lâmina gotejante.

Ainda não havia sequer sacado minha arma, um ato de imprudência, devo dizer, ainda que ele não tivesse atentando contra mim.

E se tivesse atentado não sei dizer se teria reagido, tal era meu estado.

Minha prudência, como detetive, como policial, ou até mesmo como humano num ato de sobrevivência, sumira frente a visão daquela lâmina. Gotejante.

Ainda que a única luz existente fosse a da lua, que vinha através das enormes vidraças, sua imagem, sentada naquela cadeira, era nítida.

Finalmente sai de meu estado de transe e encarei seu rosto.

Cabelo penteado. Cara limpa.

A luz do luar que incidia sobre seu rosto, no entanto, não era suficiente para uma distinção mais clara de sua fisionomia.

Pude ver o cigarro que repousava no canto de sua boca. A fumaça que exalava, trazia consigo um riso que me faz tremer da cabeça aos pés até hoje.

Um calafrio me percorreu o corpo todo enquanto a fumaça do cigarro se dispersava no ar. Aquela fumaça que se disseminava tomando conta daquele ambiente. Dominando aquela sala. Como que dizendo – Olhe, olhe pra isso. Olhe pra essa obra-prima. Sim. Minha obra-prima –.

Nos encaramos por algum tempo. Não podia ver seus olhos. Mas sabia que ele me via. Era incrível. Ele não se mexia.

Sei hoje que ele queria ser pego. Jamais teria o encontrado se ele não quisesse. Apenas não me pergunte por que ele queria que eu o encontrasse.

Talvez tenha se cansado daquele jogo.

Talvez tivesse, desde o início, planejado uma grande cena, um grande cenário. Um espetacular ato final.

A grande conseqüência. Talvez aquele momento tenha sido a premissa para todas as causas.

Enfim, seja como for, assim como ele, eu não era capaz de mover um músculo. Por diferentes razoes é claro. Eu, surpreendido e extasiado com o momento. Ele, impassível, desfrutando.

Naquele jogo que ele havia montado, eu era a figura imponente.

Prendê-lo, agredi-lo, ou até mesmo matá-lo, eram coisas que estavam previstas dentro das regras que ele havia criado. As regras do caos. Da desordem ordenada. Ordenada por um homem. O grande controlador da selvageria. Ele havia implicado os fatores, o resultado, dentro dessa lógica caótica, seria, pra ele, sempre o esperado.

Da vitrola ao canto da sala, Sinatra cantava a plenos pulmões. Não escutei meus homens chegando.

Assim como eu, eles haviam entrado no inferno criado por um homem. Isso eu já esperava. Já o conhecia muito bem. O que eu não esperava, e acredito que meus homens também não, era que fossemos entrar em nosso próprio inferno particular. Vi naquele instante a natureza do homem, em seu estado mais podre.

Seriamos, por muito tempo, atormentados por aquele momento.

Quando finalmente os encaro, vejo seus rostos cobertos com panos. A reação que tomaram, de imediato, fora a mesma que a minha. À primeira inalada dentro daquela sala, o pútrido odor da decomposição dos corpos atingiu em cheio seus pulmões e suas almas.

De rostos cobertos eles me encaravam. Troquei olhares com cada um deles. Ninguém deu uma palavra durante a coisa toda. Apenas Sinatra conduzia aquele dialogo.

Finalmente olhamos todos para ele. Quando eu tomei meu primeiro passo em sua direção, com extrema calma ele se levantou. Saquei minha arma. Todos apontamos para ele. Nenhuma reação àquilo. Ele nos ignorou. Começou a dançar por entre os corpos. Iluminados à luz da lua. I did my way! Ele acompanhava enfim, o ritmo da música.

Fizemos a prisão. Ele não relutou.

Sua obra havia sido concluída.

Não me envolvi mais com o caso. Preenchi, naquela noite mesmo, toda a papelada e fiz todo o trabalho burocrático assim que voltei a delegacia. Não esperei sequer o dia seguinte para fazê-lo. Depois disso não quis dar continuidade ao processo e passei o caso para um delegado de outra divisão. Ele levou o mérito pela coisa toda.

Quando penso, hoje em dia, a respeito do assunto acho estranho que tenha agido dessa forma. Depois de anos no encalço daquele que ficou conhecido como o mais brutal assassino do país, aquele que nem o FBI conseguiu capturar, eu não quis dar continuidade com a coisa toda. Acho que eu precisava pega-lo mais por uma razão pessoal. Para provar pra mim mesmo que nós, nós como homens, como humanidade podíamos nos livrar dele. Que aquilo que ele representava era algo terrível mas que podia ser aniquilado.

Barão Van der Berg, o barão demônio, como o chamavam.

Se eu finalmente olhei nos olhos dele ? Ah, sim. Eram olhos de homem.


"Não é nosso propósito negar a nobreza humana, nem fizemos nada para diminuir seu valor. Ao contrário, mostrei-lhes não apenas o desejo do mal que é censurado mas também a censura que o suprime e o torna irreconhecível" - Freud

28 fevereiro, 2010

Being There


Muito além do jardim. A primeira vez que assisti devia ter uns 8 anos, foi com meu pai.

Me admira como algumas coisas tem a capacidade de se prender à nossa memória. Pequenos momentos que poderiam ter passado como qualquer outro momento da vida. Mas que por algum motivo vão se prendendo em nós e aos poucos, com o acumulo dessas lembranças, vamos formando quem somos.

Enfim, lembro-me que era um sábado e que chovia lá fora. Entrei na sala e meu pai estava assistindo ao filme. Ao tão enigmático Muito Além do Jardim.

Lembro de assistir alguns lances do filme. Depois de um tempo sei que achei entediante e fui fazer alguma coisa que, não tenho duvidas, achava mais divertida.

Alguns anos depois, quando já sentia um interesse maior por cinema, entro em uma locadora e não encontro filme algum. De repente bato os olhos numa prateleira e, de imediato, me vem a recordação daquele dia, perdido em algum lugar em minha mente. Escondido em algum lugar em mim, esperando pra ser resgatado.

A capa foi o que me fez lembrar. Aquela capa com aquela cena, que até hoje me é tão bela. Chance e seu guarda-chuva sobre a água. Levei algum tempo para entender a profundidade daquela cena. Talvez porque, justamente, tenha buscado alguma profundidade nela. Quando o que ela representa é algo muito raso. Chance Gardner é aquela figura que se mantém na superfície. Ai esta sua beleza. O fascínio que exerce sobre as pessoas é o da simplicidade.

Chance passou a vida morando na casa de seu velho patrão. Nunca deixou a casa. Aquele mundo é seu mundo de experiências, cuidar das plantas é o que ele conhece. O resto das informações e seu único contato com o mundo externo vem de uma pequena televisão. Suas experiências são limitadas àquele universo. De resto, Chance é um voyer. Observa à distância nosso mundo.

Mas como crer naquilo que vê? Chance não o faz.

Chance Gardner é uma espécie de cético, mas uma espécie que dá pra gostar, ingênuo. Ele não é, por intenção, um questionador das coisas. Na verdade, Chance nada questiona.

Quando é posto pra fora de casa por um acaso natural da vida, a morte de seu patrão, Chance entra em contato com a natureza empírica do conhecimento de mundo. Chance não mais observa. Ele vive. Mas seu estado natural, sua passividade, é o que o guiam por aquele mundo.

Chance Gardner é um ser sólido. Concreto. Nunca teve de medir suas ações. Nunca foi apresentado à conceitos de relações sociais.

Chance age conforme o mundo lhe exige. Chance dança ao ritmo da música, ainda que à sua própria e ingênua maneira.

Não demora muito, Chance chama atenção de pessoas importantes e sábias. Sua ingenuidade é tomada por sabedoria. Sua passividade por elegância. Chance nada conhece do mundo, nada lhe foi imposto, portanto, de nada desconfia. Se deixa levar.

Admirado até mesmo pelo presidente dos Estados Unidos. Quando as únicas observações que é capaz de fazer, quando os únicos argumentos que é capaz de levantar, são relacionados à sua casa, à seu jardim, à seu mundo.

Chance é o belo “dar de ombros” ao mundo. Não de um jeito presunçoso. Até porque de atitudes presunçosas, Chance nada sabe.

Sua falta de interesse naquele mundo abstrato que à ele se apresenta é ingênua. Aquelas pessoas, formadas de regras de conduta social, cheias de ideologia. Aquilo tudo está muito distante para Chance. Ele não se preocupa em ir atrás.

Sua personalidade ambígua. Sua suposta sabedoria. Todas essas coisas. Todas essas coisas são meras conclusões daqueles que precisam chegar a conclusões.

Chance não é um conceito. Chance não é uma abstração.

Chance Gardner é o ser humano em sua forma natural e concreta. Sem interferências.

Chance Gardner é a beleza rasa do homem em seu estado mais simples.

O resto, bem, o resto está muito além do jardim.

27 fevereiro, 2010

You must believe in spring.

Ando pela rua numa noite como outra qualquer. Uma noite de neve. A cada passo que dou, como que em uma provocação, a neve teima em cair mais forte. Ja não sinto mais minhas mãos, e meu rosto, enrolado até a altura da boca por um cachecol, é cortado pelo vento frio que se joga contra mim.

Posso andar mais depressa e em pouco tempo estarei em casa. Mas não quero. Não hoje.

Me jogo pra dentro do primeiro bar que vejo. Uma conversa num canto aqui e outra ali, logo no outro canto. O lugar não está cheio, mas também não está vazio. Procuro uma mesa em algum lugar mais isolado. A caminho da mesa as luzes do lugar diminuem.

As conversas silenciam.

Um foco de luz nasce e ilumina aqueles dois companheiros. Amigos de longa data. Ela, que agora se esconde atras do microfone, eu poderia dizer com uma quase certeza, já fora muito bonita um dia. Já fizera muito sucesso em palcos como este, cantando pra uma platéia quase como esta. Um pouco mais animada apenas. Ele, sempre a mão amiga, seu eterno companheiro, se senta frente ao piano. Seu rosto carrega marcas e seu fígado, deduzo pelo whisky em cima do piano, também já não é mais o mesmo.

Esse momento de consideração me toma uns cinco segundos. Tempo precioso e que não se pode ser perdido dentro de um bar. Não enquanto se pode estar bebendo.

Continuo meu caminho, tentando me achar no escuro. Então eu ouço. Como uma provocação.

Aquela música começa.

Logo de início, logo no primeiro dedilhar do piano, eu reconheço.

Ela ri de mim. Aquela música me encontra após tantos anos. Me olha, se lembra de quem eu já fui. Se lembra dos dias que eu já fui. E então, num tom que não reconheço, me conta isso tudo. Me conta minha própria história. Não sei se ela brinca comigo, se me quer bem ou se me quer mal. Não reconheço suas intenções.

You must believe in spring. Ela me diz. You must believe in spring. Ela me canta.

Fico suspenso.

Por que ali ? Por que daquele jeito ?

Eram perguntas que podiam ter me ocorrido. Mas não.

Nada mais importava. Pelo menos não àquela altura da vida.

Quem sabe, alguns anos antes, tivesse eu sido acometido pelo mesmo momento, com uma ingenuidade jovial teria me perguntado essas coisas.

Mas já pouco me importo.

Não é o destino. Não é uma pegadinha, nada do tipo. É só o acaso.

Um cara qualquer entra por uma das milhões de portas de bar do mundo e escuta uma música. Só aconteceu de eu ser o cara, entrando naquele bar pra ouvir aquela música.

O pianista.

Olho pra ele. Seus grandes dedos negros correm com suavidade aquele instrumento que ele conhece tão bem, que lhe é tão familiar. São amigos de longa data. Sua voz rouca acompanha a macia e maternal, leve e sensual, voz daquela que se camufla sob o facho de luz.

É incrível, nada mais existe, nada.

Somos nós. Sou eu, o pianista, a cantora, e ela. Nada mais importa, não quando se tem a eles.

You must believe in spring. A porta do bar abre. Uma rajada de vento entra. É um casal. Eles acham uma mesa e se sentam. Não posso evitar em sentir o frio que trouxeram. You must believe in spring, aquele bar me canta.

Um cara anda pela rua, a neve cai com maior intensidade. Ele procura um bar, um restaurante, um abrigo. Ele acha, caminha até uma mesa, pede um conhaque e se aquece.

A música continua tocando, mas e dai ?

Eu sou só um cara que entrou num bar em algum momento da vida. É assim que as coisas são.

Então, sem mais demora eu caminho até uma mesa, peço um conhaque e me aqueço. Já não ouço mais nada.