01 julho, 2010

C.

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Sentada à janela do café em que costumavam se encontrar, C. mira o horizonte. Seus olhos correm da rua para o relógio de parede e, novamente, para a rua.

Há dois anos, mais ou menos, aquele já era seu local de encontro. A fumaça das xícaras quentes, naquele abrigo dos ventos de outono, era pretexto sedutor para o encontro.

Amantes clandestinos.

Sempre houve entre eles, ainda que jamais anunciado, um amor clandestino.

Talvez a excitação do mistério, ou a sedução que há no romance proibido, os tenha posto na situação do eterno vai e vem, tem e não tem.

Jogos de amor, indicados a dois. Ainda assim, insistiam em se envolver no romance barato com outros. Talvez, fosse esse o barato, o de fugir da rotina programada com a terceira alma indesejada, e reencontrar, nos subterrâneos do passado, o parceiro clandestino.

Suas pernas irrequietas pedem à boca, a constante sede do café. Logo, a xícara é vazia.

C. ajeita os cabelos, a mão se ergue – mais uma xícara, por favor –.

A sede dos lábios, no entanto, é outra, é a sede do coração. Ela sabe disso.

Um gole no café quente cobre seu rosto de fumaça. De longe, W. acha graça.

Sentado a uma mesa de fundo, ele à assiste já há algum tempo.

Não faz por mal, deixá-la à espera. Vê, apenas, prazer em estudá-la. Lembrar de seus gestos e manias. Há algum tempo já não se vêem.

C. é só receio e ansiedade. Mexe na bolsa, procura o telefone.

De longe, W. transforma em palavras suas caras e bocas. – Ele não vai vir, vou embora – o rosto relaxa – talvez ele esteja no transito, vou ligar pra ver – celular na mão, o celular volta pra bolsa – não, não vou ligar, vou dar mais um tempo –.

Um ultimo gole na xícara, ela arruma suas coisas – eu não posso fazer isso, eu estou bem, estou bem sem ele –. Se levanta e caminha até a porta.

Já, a um passo da saída, um toque gentil no braço lhe pede um ultimo olhar para trás.

C. é só brilho, o rosto, finalmente, descontraído, um primeiro sorriso, antes de se virar.

Enfim, W. – most of us, need the eggs –.

Um comentário:

Iasmin Cavalcanti disse...

Nossa, parabéns.
Você escreve muito bem.

"A sede dos lábios, no entanto, é outra, é a sede do coração. Ela sabe disso."

fiquei encantada.

ótimo blog.

beijos.
http://desnecessarioporemvalido.blogspot.com/